“El Camino”

“El Camino” não precisava existir e acho que, além disso, ninguém esperava que ele fosse acontecer. O projeto poderia ter sido recebido com muito mais desconfiança não fosse “Better Call Saul”, também uma ideia pela qual ‘ninguém havia pedido’, e que encanta por ir por outro caminho do que se esperava de um derivado “Breaking Bad”: a segunda é uma hipérbole, alta, cheia de momentos de risco; “Saul” é um drama criminoso de ambições mais modestas, acompanhando um personagem vagabundo enquanto ele comete suas vagabundagens.

Mas “Saul” e “Breaking Bad” se anunciam como jornadas rumo a um final infeliz, e”El Camino” toma o outro caminho. Aqui o que importa é ver Jesse (Aaron Paul) conquistar seus medos e superar seus traumas para ter a redenção que imaginávamos que ele teria quando saiu em disparada com o automóvel que dá nome ao filme, fugindo de Walter White e das torturas de um grupo de neonazistas. Jesse, então, está escapando de seu passado,  e pensando assim fica claro o motivo do filme ter diversos flashbacks – aliás, não me surpreenderia se alguém descobrisse que metade da duração o do filme é desses eventos do passado

Acompanhamos Jesse numa corrida contra o tempo, tendo que resolver problemas que vão se anunciando paulatinamente, como em “Breaking Bad”: temos um contratempo que deve ser superado, e que gera outro contratempo, até o final. Jesse não é Walter White: ele não possui a destreza ou o sangue frio do professor, ainda mais depois de ter passado meses em uma jaula, sofrendo todo tipo de suplício. Jesse tem que se safar do seu jeito, ecoando um lema que se repete ao longo do filme: somos nós quem fazemos nossos destinos.

É esse o tema dos flashback onde três figuras afetivas (em algum grau, pelo menos) dão ‘conselhos’ para Jesse. Cada uma dessas conversas é informada pelo momento em que o personagem se encontra: temos a conversa de namorados com Jane, a convivência com um ‘pai ranzinza’ de Walter e um Jesse desiludido ao lado de Mike.

“El Camino” talvez desaponte alguns fãs pois muito do que se vê aqui é até um pouco anticlimático: a narrativa volta muito no tempo para acompanhar um Jesse fragilizado, manipulado por Todd. Esse tempo gasto, pelo menos em teoria, com algo que já conhecemos (sabemos do sofrimento de Jesse e já conhecemos Todd) pode ser frustrante uma vez que esperamos ver um Jesse diferente, proativo até. Mas acho que a decisão é correta: Jesse nunca foi esse tipo de personagem, e não poderia virar agora, sob o risco de quebrar muito do que foi construído até aqui. E isso nem se torna desculpa para não torná-lo engenhosa de sua própria maneira: gosto muito do ‘duelo de faroeste’, com direto a um close bem fechado nos olhos, igual os de Sergio Leone.

Curioso que “El Camino” pode não ser bem o filme que os fãs queriam, mas com certeza é o final que merecemos. Seguir vitoriosamente por uma estrada em direção a um novo começo não era tão satisfatório havia algum tempo.

 

“Coringa”

“Coringa” conta a história de Arthur Fleck, um comediante fracassado que vai lentamente enlouquecendo. Nesse processo, vamos descobrindo que Arthur é uma pessoa com histórico de abuso físico e psicológico, e cujo trabalho como palhaço vai de mal a pior. É um processo de revelação mais lento do que o habitual para Hollywood, e mais moroso ainda se considerarmos que se trata de um filme ambientado em um universo de heróis.

Como essa redenção pela loucura é vista, no entanto, é onde eu acho que as coisas começam a ficar mais complexas. Pois se o desejo de ser reconhecido enquanto ser humano é uma necessidade importante de possivelmente toda pessoa, e o filme parece fazer bom uso disso, por exemplo, na cena em que Arthur passeia por um protesto, antes de entrar numa exibição de “Tempos Modernos”, por outro lado, não dá para não dizer que certos momentos me passam a impressão de que devemos nos empolgar com um personagem cujas ações são terríveis, não importa o quanto a sociedade ao seu redor seja ainda pior. Coringa surgir num corredor com riffs de guitarra não pode ser só um acaso, certo?

Essas contradições são expostas, também, em outras escolha, o que mostra que existem ideias a serviço de alguma coisa. A mítica risada do personagem, sua maior característica ao lado do rosto branco e do cabelo verde, aqui vira uma condição mental, mas que acaba por afetá-lo no nível físico. Arthur tem ataques incontroláveis de riso, desencadeados em situações de estresse. Para quem sonha em ser comediante e trabalha como palhaço, o próprio riso é fonte de dor e humilhação. Essas escolhas parecem nortear o filme até o momento em que o Coringa começa a surgir, após a cena no trem. Ali, a risada é a fonte inicial de conflito, até que o revide acontece. Vemos que Arthur supera o problema, depois, durante uma apresentação de comédia stand up, e percebemos, também, mudanças em seu comportamento. A ideia do ‘mito inspirador’, uma noção bastante trabalhada trilogia Batman de Christopher Nolan, aqui ganha outra tradução: são as ações do Coringa que vão inspirar dezenas de pessoas para a revolta. O Coringa, então, seria este convite para a revolta, o caos, a loucura.

A inclusão de Thomas Wayne e toda a história ao seu redor acaba deixando tudo muito amarrado com a mitologia do Batman. Inicialmente, achei que o filme apenas iria mostrar Wayne como uma figura no background, em aparições de TV e uma ou outra cena, mas “Coringa” tem ambições maiores: a história de um impele o surgimento de outro. Quando um filme que tem como protagonista um personagem tão caótico, poderia se permitir ousadias ainda maiores, como por exemplo não preocupar naquele velho papo de que temos que ligar o máximo de elementos reconhecíveis possíveis. Apesar disso, a maneira como o empresário personifica certos tipos do mundo real, ambições políticas inclusas, é boa. Inclusive, é bem-vinda essa utilização do passado para fazer certos comentários sobre o presente, e o estado de atual caos das coisas não encontrava projeções tão fortes vindas de Hollywood faz algum tempo, salvo algum engano ou esquecimento. Obras recentes de diversos cantos do mundo que expõem cenários de revolta e revide, e é bom ver esse espírito no cinema.

Não vou me estender na questão, mas me surpreende que o filme tenha gerado tamanha polêmica, já que essa pompa ousada e revolucionária que o acompanha não encontra muito fundamento em tela. “Coringa” é sim um filme com ideias, e só por isso já dá para aprecia-lo um pouquinho, pelo menos, mas essas ideias ainda parecem ter certos problemas de germinação, muito pequenas para causar o impacto que pretendem. Sendo assim, fica um pouco difícil não enxergá-lo como uma tentativa um pouco juvenil de lidar com temas complexos.

 

“Bacurau”

Alguns anos no futuro, a cidade de Bacurau, no sertão de Pernambuco, ‘desaparece’ do mapa. Não existem vestígios dela na internet – apenas em uma planta física desenhada à mão, arrancada da parede como um truque de mágica. Aos poucos, vamos entendendo que se trata de um afastamento planejado, de autoria um grupo de norte-americanos, que tem intenções de caçar e matar a população local.

Os habitantes dessa pequena cidade nos são apresentados após o funeral de Dona Carmelita (Lia de Itamaracá), importante matriarca local. Um belo discurso sobre gerações dá início a um cortejo, onde percebe-se que algo não está certo. Teresa (Barbara Colen) é quem nos traz para Bacurau, viajando em um caminhão-pipa, e é por ela que somos apresentados a alguns tipos locais, como seu pai, o professor Plinio (Wilson Rabelo), o criminoso Pacote (Thomas Aquino) e a única médica do vilarejo, dra. Domingas (Sônia Braga) . Faz sentido, como declarado em entrevistas pelos diretores/roteiristas Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, que “Bacurau” tenha firmes raízes no cinema de gênero, em especial no western: seus personagens parecem muito oriundos do processo icônico inerente ao faroeste, e, mais ainda, ao faroeste norte-americano. Pacote é o criminoso no caminho da redenção; no início, pede para ser chamado pelo nome verdadeiro, Acácio. A obrigação com Bacurau o sedimenta como Pacote. Outro criminoso, Lunga (Silvero Pereira), é uma criação afiada da dupla de realizadores, e também é quem parece mais inserido, como criação cinematográfica, nessa mística do gênero: Lunga se agiganta cada vez mais, até explodir em sangue. Ele também passa por um processo de transformação: se antes o vimos de cabelos curtos, saindo de um cano de esgoto, a única saída do verdadeiro Lunga é pela porta do Museu de Bacurau, cabelos longos, unhas pretas, pistola prateada.

Adotar essas características se prova como interessante ferramenta de diálogo com o cinema brasileiro, ao mesmo tempo que também exibe suas limitações. O bando de estrangeiros que decide invadir Bacurau, nunca escapa do aspecto mais simplório dessa visão: são arquétipos cansados. Nem o gravitas de Udo Kier parece acrescentar muita coisa: seu personagem, Michael, é quem tem mais destaque entre os integrantes do grupo, mas o filme não parece interessado em deixá-lo ser algo que não o vilão. O que torna suas cenas pouco dinâmicas, e tomam um tempo valioso de outras histórias.

É curioso falar que um filme de mais de duas horas parece breve, e existe aqui um elogio à àgil edição de Eduardo Serrano, e é um prazer ir ao cinema para ver um filme que tenha ideias, mas ainda considero que certos momentos carecem de certo desenvolvimento – afirmo isso consciente de que existem decisões que certos cineastas optam por não explorar, ‘deixar no ar’. Como com o uso dos elementos do faroeste, essas faltas me parecem mais amputações’, suas presenças são sentidas. Os arquétipos são um interessante argumento para a análise pela ótica do western, mas esse certo contentamento em imaginar que o gênero basta em si não se traduz muito bem no conjunto das coisas.

Ao se unir em combate, o povo de Bacurau mata aqueles que desejavam lhes matar, e por fim manda o prefeito pilantra para o meio do sertão, amarrado em um burro, vestindo uma máscara. A política não deixa de ser um western otimista, ainda que violento, com o argumento de que, ao seu unir, o povo é capaz de realizar as mudanças. Essa proposta, obviamente, encontra ecos e não pode ser desassociada, pelo menos agora em seu lançamento, do momento político brasileiro. Kleber e Juliano imaginam que essa convergência pode gerar novas perspectivas, e certas tradições que parecem tão sedimentadas no país -a exploração do estrangeiro e dos políticos – podem ser quebradas. Cuidadosos, os realizadores não procuram, também, demonizar outras ritualizações. Vemos o tal “poderoso psicotrópico” ser ingerido algumas vezes sem, aparentemente, maiores prejuízos, Dona Carmelita retornar numa intervenção milagrosa, o museu é palco de importante conflito. Ou seja, existe aí um entendimento de que a tradição local, que brota organicamente do povo, deve ser preservada e valorizada, e também pode ser fator de ‘revide’, de proteção.

Esse otimismo parece encontrar carinho por plateia da plateia brasileira; basta ver os ótimos números que o filme fez em seu final de semana de estreia. Ao reafirmar a característica batalhadora do povo brasileiro, que não só sobrevive sob fortes adversidades (como o controle sobre a distribuição de água), mas que também é capaz de rebater avanços estrangeiros com a mesma força e violência que lhes são dispensadas. Mas o que ele propõe para estas questões? Pouca coisa, diria.

A ‘fantasia de afirmação’, ou seja, o filme onde se afirma a potencialidade, chega num momento que o cinema de gênero brasileiro atinge um bonito marco. “O Animal Cordial”, “As Boas Maneiras” introduziram elementos fantásticos para contar histórias produzidas pelo convívio em grandes cidades. Tendo como palco um vilarejo nordestino, “Bacurau” assume para si uma trama que só podia ser gerada desses grandes espaços, onde a vida de uma cidade inteira pouco importaria de alguma coisa. Nesse sentido, esse grito de estar vivo, de ser gente, pode parecer fortuito, mas o que será feito desse momento? Não sabemos, pois a película não passa daí. O imediatismo é o fim; vencemos, e é isso.  E aí vale se considerar: o filme celebra isso, numa congratulação bizarra de uma não-resolução, ou se alimenta para gerar uma crítica? Minha opinião, por enquanto, fica com a primeira hipótese.

Game of Thrones – S08E06

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Nem vou começar esse texto te relembrando de número de episódios, anos, nem nada disso. “Game of Thrones” acabou e, independente da sua opinião, foi muito bom poder compartilhar esse momento não só com você que tomou o tempo de clicar no link, mas com todo mundo com quem eu passei horas e horas discutindo sobre.
Passado isso, é inegável que a série termina seu último ano pior do que começou. O sentimento imediato aqui é que o gosto de frustração é um pouco inevitável: tudo pareceu muito corrido, e o que já era um problema da sétima temporada e seus oitos episódios aqui se torna uma coisa pior ainda com apenas seis domingos para fechar todas essas histórias.
Discutindo apenas o episódio: Tyrion me parece o personagem que se sai melhor, pois ganha uma história completa mais satisfatória para contar ao longo da temporada do que Jon Snow e Dany, por exemplo. Nosso anão preferido teve alguns episódios para errar, enquanto que Dany se revela uma vilã que logo em seguida morre em dois episódios. Aliás, para fechar o assunto: não tenho problemas necessariamente com o que acontece com os personagens da série, mas claramente tempo e maturação não foram levados em conta pelos roteiristas, e isso me parece um erro meio que ‘básico’ que, confesso, me deixa confuso, para não dizer decepcionado. Manuais de roteiro, e cito eles pois “Game of Thrones” nunca quis abandonar manuais e convenções de gênero, certamente não ensinam que pressa é uma aliada.
Vou falar novamente em tempo, pois continua achando que a saída de alguns personagens do ‘núcleo duro’ da série me deixaram desapontado. Cersei, Jaime e Dany mereciam partidas mais longas, exploradas. Respeito que a gente pouca veja da Dany depois que Drogon a leva, é uma decisão até que ‘ousada’, uma vez que não nos dá o que esperamos, mas é difícil não imaginar que se trata de um problema de, olha só, falta de tempo na edição. E sinceramente, acho o significado de Drogon derretendo o Trono de Ferro meio óbvio e brochante. O finale é, em sua maioria, bastante “felizes para sempre”, o que é uma surpresa considerando o tom meio infeliz pelo qual a série é conhecido. Não considero isso uma ‘traição de princípios’, necessariamente, mas também não gosto de certa falta de sutileza nessa conclusão.
Quero (e irei) fazer um texto maior para ser publicado mais para o fim da semana, quando os ânimos se acalmarem. Até lá.

Game of Thrones – S08-E04-05

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Caralho, “Game of Thrones” mandou um cavalo branco para salvar a Arya. Eu sei que esse episódio tem algumas besteiras, mas preferia quando cavalos brancos surgiam após Serginho Mallandro entrar com uma mobilete por um túnel da Imigrantes.

Eu torci o tempo inteiro para que “The Bells”, penúltimo episódio da série, o quinta desta oitava temporada, se redimisse com relação a maneira como a Cersei vem sendo tratada. Primeiro, a ameaça com os White Walker realmente era urgente. Agora, me parece simplesmente má vontade dos roteiristas para com a personagem. Cersei é uma das personagens femininas mais complexas da série; inegavelmente, é uma vilã, mas essa escanteada faltando apenas um episódio para que alguém me conte uma história convincente com ela me faz pensar que simplesmente ninguém naquela equipe se interessou em escrever para a nossa odiável Cersei. Uma pena, pois ela, personagem e atriz (Lena Heady), com certeza é mais interessante do que a Dany, que aproveitou para assumir o manto de Targaryen Louco, se a imagem dela com cara de ressaca e cabelos revoltosos não tivesse deixado isso claro ainda. Para completar, tivemos essa imagem aqui (num episódio cheio de alusões a fogo e dragões, aliás):

Captura de Tela 2019-05-13 às 02.28.08

TYRION LITERALMENTE ENTRA NA CABEÇA DO DRAGÃO!!!!!!!

Já com Cersei, suas tramas secundárias são meio que despejadas pelo episódio, com Qyburn sendo cruelmente morto por Clegor. Aliás, a luta entre Clegor e Sandor, que eu aguardava com expectativa, tem lá seus charmes; nunca vou reclamar de alguém arrancando um espada do próprio abdome enquanto o sol tenta surgir das nuvens, mas é aqui um caso clássico de “muita promessa”.

“Game of Thrones”, assim como “Lost” e tantas outras séries, se construiu na base de uma série de promessas que precisa pagar. Essas promessas devem ser pagar de maneira satisfatória, certo? Essa expectativa é quase sempre danosa nesse formato de história. Não citei “Lost” ali atrás por acaso, mas acho que isso também não justifica o gosto de fracasso que o final de “Game of Thrones” deixa até aqui. Posso listar aqui uma série de decisões que não me agradam neste episódio, ou no quarto capítulo, que não comentei. Gosto da série quando ela se propõe a ser muito mais sobre os bastidores do poder do que quando tenta ser um épico de ação. É bonito plasticamente ver Drogon queimando King’s Landing, mas eu não gosto mesmo da decupagem dessas cenas nesses últimos episódios. Quantos cortes podem caber mais na briga entre o Cão e a Montanha? Pois bem, retornando para as ‘promessas’, no caso desta cena, é que Sandor teria sua vingança, e ele de fato teve. Também cumpriu a promessa do próprio personagem de morrer lá, e ainda mais sendo abraçado pelo fogo que ele tanto odiava. Mas por que eu não me sinto tão satisfeito quanto achei que sentiria? É o fato de ter muita antecipação?

Séries que a gente costuma citar como “as grandes” normalmente seguem por um caminho não tão preso com essas ‘promessas’. “Os Sopranos”, “The Wire”, “Mad Men”,  costumam caminhar por estradas bem menos definidas do que “Game of Thrones”. Isso continua não sendo uma desculpa, quero deixar claro, pois “Breaking Bad” fez muita promessa e cumpriu a maioria delas. Mas, é como eu já disse: eu não citei “Lost” por um acaso. As respostas que “Game of Thrones” não estão agradando. E umas não fazem muito sentido mesmo. Lendo comentários na internet já vemos ai vária teorias de que Dany sempre foi malvada, etc etc, mas isso foi sim feito de maneira muito rápida, uma ideia aprofundada em uma temporada. É fatal que esta temporada seja a última de uma série de oito temporadas.

É curioso que por um momento, vendo “The Bells”, eu pensei: “Será que a série vai mandar todo mundo para o inferno e vai encerrar com várias pontas soltas?”. Mas acho isso meio que impossível, e faz sentido logicamente que se mantenha a tradição de tantos episódios. Só não vou negar que essa ideia me pareceu mais interessante do que as respostas que eu recebi até agora.

Game of Thrones – S08E03

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Como este texto está saindo em plena terça-feira, dois dias depois da exibição deste terceiro episódios, não vou ficar aqui me debruçando muito sobre assuntos batidos, teorias ou inconclusões que podem ser definidas nos próximos episódios. Queria discutir aqui os efeitos de uma série que se estende por oito temporadas e ainda tem a capacidade de nos deixar muito preocupados com o destino de seus personagens.

“Game of Thrones” ganhou fama, principalmente, como ‘a série que mata todo mundo’, e a bem verdade é que ela já não é mais essa produção há algum tempo. Agora, passado o fervor, é óbvio, por exemplo, que não havia maneira de matar Jon Snow, um personagem tão importante e com tanta ‘construção’ com ele tinha. Assim como não faz sentido se matar (ainda) a Jaime Lannister, sendo que se passou sete temporadas arquitetando um confronto entre ele e Cersei. Não dar aos espectadores isso é um erro de cálculo enorme, que os showrunners provavelmente não iriam cometer, por todas as evidências do passado.

E apesar disso tudo, o terceiro episódio ainda foi tenso, com momentos realmente épicos, especialmente se levando em conta de se tratar de um nível de produção inédito para a TV mundial. Gosto muito de como certas coisas se resolvem muito mais por imagens do que por qualquer outra coisa, como a disparada dos cavalos dothrakianos com espadas flamejantes, ou o confronto desleal entre Jon Snow e um dragão. Não é necessário dizer uma palavra para que entendemos a informação que está sendo passada, como deve ser em toda produção audiovisual que se preze. Obviamente que não está se defendendo um ‘audiovisual mudo’, apenas um pouco mais de sutileza, como “Game of Thrones” mostrou em alguns momentos deste episódio.

Apesar de certas conquistas, no pior dos momentos, “The Long Night” parece óbvio demais, quando não incompetente. Nem vou entrar no mérito de criar uma situação ilógica que Arya resolve rapidamente, mas também, por exemplo, o clássico ‘momento de derrota na batalha com música triste’, que ainda ganha alguma dignidade com o piano espetacular do compositor Ramin Djawadi. Acho que o gênero como um todo já poderia superar essas convenções ou, então, fazia algo de diferente com elas.

Resolvido um dos grandes conflitos da série, os White Walkers, “Game of Thrones” agora se volta para Cersei. Houve quem reclamasse que o Rei da Noite não recebeu a devida importância, “morreu rápido demais”, mas o que a série nos mostra é que essa batalha, embora importante, não é o foco da história. O foco são os personagens humanos, vivos, falhos, e não zumbis. Quem quiser, “The Walking Dead” ainda está passando.

Game of Thrones – S08E02

Quem gosta de ler manuais e guias de roteiro pode ver atualmente em “Game of Thrones” o que acontece quando uma série boa, mas não ótima, resolve colocar todos os seus personagens em uma caixa e deixa-los lá. Isso normalmente envolve algum tipo de espera, como aqui, mas pode ser causado também por outros fatores (um imprevisto climático, por exemplo), se você quiser ficar aí pensando em outros exemplos de séries que você gosta. Essa condição imposta aos personagens acaba sendo usada de boas e más maneiras, mas me faz temer por esses episódios finais da série justamente por uma falta de aptidão em ‘entregar’ as cenas.

O segundo de seis episódios da temporada final é um ‘jogo da espera’, muito mais do que seu antecessor. Personagens esperam e, por causa dessa espera, interagem. Esses momentos variam demais, mas tem um ponto em comum, me parece: uma certa inabilidade em apenas terminar a cena. É difícil não falar em spoilers aqui, mas a cena de Arya recebendo de Gendry sua nova lança precisava seguir por tanto tempo?

Sim, os roteiristas querem criar mais tempo entre os personagens antes da batalha que provavelmente matará alguns deles. Entendemos isso. O problema é saber quando parar, ou então trazer algo realmente interessante para o gênero. Eu não preciso de mais uma cena de alguém cantando enquanto pessoas se preparam para a guerra, obrigado.

PS: Entre algumas cenas, gosta daquela com um certo close em Daenerys. Para mim, o melhor momento da personagem em algumas temporadas.